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Etimologia de Acidente

O acidente na aviação

Etimologia e semântica

Muitas e muitas vezes, usamos palavras criadas no passado sem saber que elas guardam um sentido muito mais profundo e filosófico do que imaginamos.

O que significa acidente para você?

Semântica é o estudo do significado, isto é, a ciência das significações das palavras ou o estudo da relação entre a palavra e o que ela significa.

O estudo etimológico do vocábulo acidente é interessante.

Trata-se de palavra de origem latina, accidēns, particípio presente do verbo accĭdō, que significa “cair para” ou “cair sobre”.

Logo, acidente significa caído sobre (alguma coisa).

Acidente é, então, em um primeiro momento, cair. Mas, por que acidente provém de cair?

A relação entre “cair” e “acidente”

Devemos investigar a relação entre cair e acidente.

Cair também vem do latim, “caděre”, que significa “ir ao chão”. Observamos que “caděre” se liga ao mesmo radical de “caelum” (que significa “céu”); é uma ligação muito lógica, posto que a ideia de cair pressupõe altura ou céu, já que o que cai vem do alto, do céu ou de cima.

Assim, mais remotamente, acidente significa “caído do céu”.

Histórica e semanticamente, sabemos que acidente significa um acaso, mas não um acaso neutro, porque acidente traz uma aura de negatividade, tem uma certa conotação de “desgraça, infortúnio, falta de sorte etc”.

Como, então, relaciona-se esse sentido atual de acidente (“acaso infeliz”) com a sua etimologia ou com o seu significado mais antigo de “caído do céu”?

Casualidade, infelicidade e Justiça

Talvez, a conotação de casualidade ou infelicidade do acidente esteja intimamente ligada a um sentido muito especial que os romanos davam ao verbo cair, o qual atravessou os séculos até os dias de hoje: cair se relaciona com os julgamentos da Justiça.

Analisando o vocábulo julgamento, constatamos que a ideia de julgar instiga, no espírito do homem, dois sentimentos bem claros: o de divindade, superioridade, altura (céu), porque julgar é o ato de Deus (que está no céu ou no alto), e o de incerteza (acaso) sobre qual será o julgamento (que é desconhecido ou ignorado).

Começamos, assim, a estabelecer algumas ligações entre cair (algo que vem do céu, de cima etc.) e julgar (algo que também vem do céu, do alto etc.).

Ainda, da ideia de julgar, como vimos, vem-nos o sentimento de incerteza quanto ao que “cai do céu”.

Assim, encontramos a conotação de casualidade no verbo cair, do qual acidente é uma flexão (particípio).

Os antigos Romanos

E onde está o halo negativo que cerca o verbo cair e, por conseguinte, a sua variante acidente? Vejamos.

Nos litígios romanos, cair designava o pior, pois era empregado quando o litigante era condenado. Caído era o condenado pela Justiça. Para os romanos, quedatombo, sucumbência condenação se equivalem, tanto é que os romanos se referiam à perda de um processo através, justamente, do verbo cair: “causa cadere”, “ in judicio cadere” ou, simplesmente, “cadere” .

Um mal que veio do céu

Então, quando “cair” era empregado em um julgamento, significava “um mal que veio do céu”.

Portanto, acidente é, no seu berço semântico, “o mal que caiu do céu sobre uma pessoa”, pressupondo o julgamento divino que, sendo-lhe contrário, converteu a incerteza de um dano em um prejuízo efetivo.

C, a letra triste

Aliás, em suas lições de latim, ANTÓNIO GOMES FERREIRA ensina que o “c” de “cair”, com a conotação de “condenação”, levou os romanos a designar essa letra de seu alfabeto como a “littera tristis”, ou seja, a letra triste… O contrário da letra “a” de “absolvo” (nos julgamentos).

Conclusão

Curiosamente, vemos que a história etimológica de acidente reúne as ideias de céu (a divindade), julgamento (a incerteza) e queda (a perda).

About Author

Edmundo Lellis Filho

Advogado no Brasil e na União Europeia.
Membro da International Bar Association (IBA) de Londres.
Membro da International Law Association (ILA – Países Baixos).
Membro Câmara Internacional do Comércio de Portugal.
Mestrando (LL.M.) em Justiça Internacional pela Universidade de Londres.
Juiz aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo (1991/2022).
Oficial de Justiça do Tribunal de Justiça de São Paulo (1988/1991).
Piloto Privado Avião.
Investigador de Acidente Aeronáutico (FAB/CENIPA/2004).
Membro honorário da Força Aérea Brasileira.
Membro honorário do Aeroclube de São Paulo.
Autor Livro: O Julgamento de Pôncio Pilatos/Landmark. 2ª Ed. 2007.

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