Edmundo Lellis Filho é advogado no Brasil e na União Europeia. É membro da International Bar Association (IBA) e da International Law Association (ILA – Londres). Atualmente, é mestrando (LL.M.) em Justiça Internacional pela Universidade de Londres e juiz aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP), onde atuou de 1991 a 2022.
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Por que a “América” se chama “América” e a porção sul desse grande continente, onde está o Brasil, chama-se “América Latina”?
Introdução
Ao contrário do que se pode imaginar, todas as quatro grandes massas de terra a meio dos oceanos do planeta Terra têm uma justificativa. Não são nomes nem casuais, nem eventuais, mas “de caso” muito bem pensado.
A propósito, na imagem do post gerada por IA, o polvo representa a Europa no século XVI.
O porquê de ser América
Muito provavelmente, os leitores mais curiosos já sabem que o navegador e explorador italiano Cristóvão Colombo (1451-1506)[1], ao chegar àquela “porção de terra desconhecida” (algum dia entre 1492-1494), imaginou não que estava em uma “quarta massa de terra”, e sim que havia chegado a uma parte ainda inexplorada da “terceira massa de terra” existente no globo, a Ásia, sendo a Europa e a África as outras “duas massas de terras” então conhecidas.
A propósito, naquele tempo, imaginava-se que Jerusalém se situava no centro do mundo, mas não é verdade que se imaginava que a Terra era plana! Ainda, os mapas eram orientados para o leste, de modo que a Europa parecesse o mais possível bem no meio do mundo… É o eurocentrismo que permeia a vastidão cultural do mundo, especialmente, no direito internacional, no centro do qual está a Europa, de modo que os eventos, muitas vezes “regionais”, são tratados como “universais”, por exemplo, o movimento de paz que gerou a Primeira Conferência de Paz de Haia de 1899.
Um ano após a morte de Colombo, credita-se ao humanista e cartógrafo alemão Martin Waldseemüller a elaboração de um mapa, no qual aquela “porção de terra desconhecida” é retratada como América[2], em uma homenagem do cartógrafo alemão a quem ele julgava ser, em detrimento de Colombo, o verdadeiro descobridor da “quarta massa de terra do mundo”, Américo Vespúcio (em Italiano, Amerigo Vespucci). Não vem ao caso, mas apenas para mencionar, a questão é que Colombo teria estado primeiro nas novas terras, mas pisado em uma ilha, pensando que estava na Índia, ao passo que, logo depois, Vespúcio também teria navegado àquela parte do mundo e, literalmente, pisado em terra do próprio continente, e não simplesmente em uma ilha dele[3].
Com todas as controvérsias sobre “quem” realmente “descobriu” a “quarta massa de terra do planeta”, prevaleceu mesmo o que o cartógrafo alemão Waldseemüller julgou ser o “justo”, até porque o mapa com a nova configuração do mundo quem fez foi ele e, assim, reservou-se ele o direito de batizar a quarta parte de terra com o nome que melhor lhe aprouvesse.
Sendo América o nome em homenagem ao descobridor Américo Vespúcio, por que não “Américo” em vez de América?
De fato, Américo é um nome masculino e o novo continente tem uma versão feminina dele. Ora, os oceanos têm nomes masculinos (por coincidência) e as demais porções de terra têm nomes femininos (Ásia, África, Europa). Logo, América (feminino) de Américo pareceu “ornar” melhor.
Como explica George C. Hurlbut, em seu trabalho de 1886, intitulado “THE ORIGIN OF THE NAME AMERICA”[4], Waldseemüller, em várias passagens do seu livro (contemporâneo ao seu mapa mundial[5]), “INTRODUÇÃO À COSMOGRAFIA”, justifica o nome AMÉRICA para a quarta massa terrestre[6]: o cartólogo Waldseemüller germânico se explica dizendo que o nome tinha de ser feminilizado para combinar com os demais nomes femininos atribuídos aos outros até então três continentes existentes (Europa, Ásia e África).
O mapa de Waldseemüller é, assim, considerado a certidão de nascimento do continente americano e, ao mesmo tempo, a certidão de óbito dos povos que existiam naquele continente, portanto, antes dos europeus ali chegarem em 1492.
Agora, porque a grande porção sul, logo abaixo da linha do Equador, passou a ser chamada de Latina, ou de América Latina, é outra questão não menos eurocêntrica do que o próprio batismo do novo continente com um nome europeu.
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[1] Childs, Wendy R. “1492-1494: Columbus and the Discovery of America.” The Economic History Review, vol. 48, no. 4, 1995, pp. 754–68. JSTOR, https://doi.org/10.2307/2598134. Accessed 21 Mar. 2025.
[2] The epic story of the map that gave America its name, lida em https://www.bbc.com/travel/article/20180702-the-epic-story-of-the-map-that-gave-america-its-name, em 21/3/25.
[3] Essa disputa sobre quem “descobriu” a “nova parte do mundo” lembra um pouco a confusão sobre quem “inventou” o avião, Santos-Dumont ou os Irmãos Wright.
[4] Hurlbut, George C. “The Origin of the Name ‘America.’” Journal of the American Geographical Society of New York, vol. 18, 1886, pp. 301–16. JSTOR, https://doi.org/10.2307/196796. Accessed 21 Mar. 2025.
[5] O livro ainda existe e foi publicado em 1507. As cópias daquele mapa se perderam. Conta-se que houve mil impressões.
[6] “Na direção do Polo Antártico estão situadas as recentes partes descobertas mais distantes da África, e Zanzibar, as ilhas de Lesser Java e Seula, e a quarta parte do mundo, a qual pode ser chamada de Amerige – que é a terra de Americus, ou America, porque ela foi descoberta por Americus”.

