Ilustração histórica recriando o acidente aerostático de 1785 no Canal da Mancha. A cena foca nos fatores operacionais e humanos da época, com estética de pintura a óleo dramática. Imagem gerada para o artigo sobre os 240 anos do acidente de Pilâtre de Rozier e a análise retrospectiva sob a ótica da NSCA 3-13. Arte concebida para o portal elfilho.lawyer

Fator Psicológico: O Balão da Meia Noite do Acidente Aéreo

“O ‘Balão da Meia-Noite’, que orbita a aviação há mais de 240 anos, talvez não seja um fantasma, mas o elo final de uma cadeia de eventos — o derradeiro aviso invisível, suspenso entre a audácia do voo e a iminência da tragédia.”

O fator psicológico no acidente de Pilâtre

Pilâtre foi o primeiro homem a realizar uma navegação aérea, e também o primeiro homem a morrer em uma navegação aérea, em 15 de Junho de 1785. A aviação tem seus heróis e suas vítimas, parafraseando o químico francês François Antoine Henri Descroizilles, que testemunhou parte do acidente…

A vaidade e anseio de liberdade habitam o mundo da aviação, sob as brumas do desejo de conhecimento, de superação e até de solidão; o ar permeia a vida e determina a morte dos arrojados aviadores, desde o impetuoso e incauto Ícaro, mitológica figura “cujas altas pretensões lhe foram altamente funestas”.

Foi assim com Jean-François Pilâtre de Rozier (30/03/1753-15/06/1785).

Pilâtre de Rozier

Pilâtre foi, ao lado do Marquês d’Arlandes, o primeiro homem a realizar uma navegação aérea, a qual aconteceu em Paris, teria durado meia hora, percorrido cerca de dez quilômetros, cruzando o rio Seine, e a uma altitude de até 1 quilômetro (3.000 pés), no memorável 21 de Novembro de 1783. Mas, como pondera William B. Ashworth, Pilâtre não viveria para ver muito daquela época.

Pilâtre queria ser o maior aeronauta e superar Blanchard, que cruzara o Canal da Mancha (da Inglaterra para a França) com um balão. Para essa empreitada, o químico aeronauta francês criou um perigoso balão duplo de ar quente e de hidrogênio, o Charlière.

Experiente aviador, Pilâtre estava bem ciente do risco de manter uma chama viva perto de um recipiente de hidrogênio!

Pilâtre espera bons ventos

Assim foi que, desde 18 de abril de 1785, Pilâtre vive uma longa e angustiante espera por bons ventos para o seu histórico voo; esperançoso, à meia noite do dia 15 de Junho, ele lança um balão de teste. Então, o vento traz logo de volta aquele artefacto da costa francesa, para onde ele precisava voar. Era um mau sinal; contudo, Pilâtre já vivia o auge de forte pressão psicológica. Sua noiva estava em um convento do outro lado, na Inglaterra, em Boulogne, onde aguardava sua vitoriosa travessia do mar para se casarem.

Pilâtre era um homem de virtudes. Rendera todas as homenagens e honras ao seu concorrente Blanchard, no começo do ano, quando ele cruzou o Canal, mas se acidentou no pouso em solo francês, devido ao mau tempo.

Tudo parecia estar em jogo naquele seu voo: sua reputação, seu suporte financeiro… Já com sua capacidade de julgamento obnubilada, às sete horas da manhã do dia 15, assim, Pilâtre chama seu companheiro Romain. Ele decide decolar o Charlière.

O balão Charlière

Na ampulheta da vida de Pilâtre, escoam as derradeiras areias do tempo.

Ao disparo de dois canhões, o balão Charlière se descola do chão.

Os aeronautas saúdam os espectadores festivos com o aceno das mãos.

Vinte e sete minutos de voo, estão a 530 metros de altura (1.600 pés).

Lá no alto, surgiram aqueles ventos fortes do oeste, dos quais Pilâtre fora prevenido pelo balão da meia noite.

Uma chama surge no topo do pobre Charlière, que explode.

O aparelho caiu a apenas 300 metros do mar que deveria atravessar, matando instantaneamente Pilâtre.

Romain ainda pôde dar um último suspiro diante dos que tentavam ajudá-lo.

A noiva de Pilâtre

Oito dias depois, Susan Dyer, a devota noiva de Pilâtre, sucumbiu à morte de tristeza.

Pilâtre foi o primeiro homem a realizar uma navegação aérea, e também o primeiro homem a morrer em uma navegação aérea, em 15 de Junho de 1785. A aviação tem seus heróis e suas vítimas, parafraseando o químico francês François Antoine Henri Descroizilles, que testemunhou parte do acidente…

Análise do Acidente

Se fôssemos analisar, em 2026, sob a normas do NSCA 3-13 (Protocolos de Investigação de Ocorrências Aeronáuticas da Aviação Civil conduzidas pelo Estado Brasileiro) do CENIPA, o acidente de Pilâtre, sinteticamente, poderíamos 

Análise Teórica dos Fatores Contribuintes

Caso fôssemos aplicar a metodologia de investigação do SIPAER de forma analítica, os fatores seriam divididos nas três áreas de atuação descritas no Capítulo VI:

A. Fator Material (Art. 129, II)

Este fator investigaria as condições de aeronavegabilidade e o projeto do balão.

  • Projeto e Fabricação: A análise focaria na perigosa combinação de uma bolsa de hidrogênio (inflamável) posicionada acima de um cilindro de ar quente (com fogacho aberto).

  • Manuseio do Material: Avaliaria se a fadiga do material da bolsa de seda ou a porosidade permitiram o vazamento de gás que levou ao incêndio.

B. Fator Operacional (Art. 129, III)

Este fator focaria no desempenho técnico e no ambiente de voo.

  • Desempenho Técnico: Avaliaria a decisão de Pilâtre de decolar com ventos desfavoráveis e a sua gestão da mistura de gases durante a tentativa de travessia do Canal da Mancha.

  • Ambiente Operacional: Consideraria a influência das correntes de ar e das condições meteorológicas que mantiveram o balão sobre a terra em vez de avançar sobre o mar.

C. Fatores Humanos (Art. 129, I)

Esta área buscaria investigar os aspectos biopsicossociais de Pilâtre e de seu copiloto passivo.

  • Aspecto Psicológico: Investigaria a pressão social e a rivalidade com Blanchard (que já havia atravessado o Canal), o que pode ter gerado um excesso de autoconfiança ou pressa na decolagem por parte do comandante Pilâtre. Teria grande relevo também a sua ansiedade em decolar e ir ao encontro da noiva que o aguardava, em um convento na ilha britânica, para que pudessem se casar.

Conclusão

Passaram-se 240 anos desde o trágico evento de Pilâtre. Desde então, o transporte aéreo evoluiu de modo que, com certeza, Pilâtre não a imaginaria nem nos seus sonhos mais fantásticos. Porém, as lições extraídas dos acidentes aéreos continuam, simplesmente, as mesmas desde o seu “balão da meia-noite”, que o preveniu da tragédia a espreitar seus propósitos.

Os fatores contribuintes, notadamente, psicológicos, repetem-se a cada dia como se fossem uma eterna novidade.

Assim, de erro em erro, a doutrina do acidente aéreo vai identificando o “balão da meia-noite” dos acidentes que poderiam ter sido evitados.

About Author

Edmundo Lellis Filho

Advogado no Brasil e na União Europeia.
Membro da International Bar Association (IBA) de Londres.
Membro da International Law Association (ILA – Países Baixos).
Membro Câmara Internacional do Comércio de Portugal.
Mestrando (LL.M.) em Justiça Internacional pela Universidade de Londres.
Juiz aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo (1991/2022).
Oficial de Justiça do Tribunal de Justiça de São Paulo (1988/1991).
Piloto Privado Avião.
Investigador de Acidente Aeronáutico (FAB/CENIPA/2004).
Membro honorário da Força Aérea Brasileira.
Membro honorário do Aeroclube de São Paulo.
Autor Livro: O Julgamento de Pôncio Pilatos/Landmark. 2ª Ed. 2007.

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