Por que as Américas do Sul e Central se chamam Latinas?

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Ao contrário da América Latina, porém, que foi uma ideia que se perpetuou, a Africana Latina não criou raízes geopolíticas e logo desapareceu, dela se tendo apenas vaga lembrança histórica.

 

Introdução: O que é América Latina?

Em uma época em que os Estados Unidos, sob a presidência de Trump, invadiu a Venezuela em 3 de Janeiro de 2026, ao mesmo tempo em que ameaça Cuba, o México e a Colômbia, um post sobre as origens do nome “latina” para designar as Américas Central e do Sul é como revisitar o início do século XIX, quando o direito internacional tinha influência insignificante na relação entre os Estados.

Poucas pessoas sabem que latina não é só a América; também houve a África latina, criada para conferir a partes da África o mesmo sentido ético-político que latina atribui às Américas Central e do Sul.

Só uma razão explica porque a África latina não se perpetuou geopoliticamente como a América Latina: o protagonismo imperialista, o contraste da presença dos Estados Unidos na América do Norte sobre as outras duas Américas (Central e do Sul), enquanto papel semelhante ao dele não houve quem desempenhasse no continente africano que, então, reuniu-se sob uma denominação única, África.

Assim, a latinização da América se perpetuou por conta da polarização, como se tivesse se consolidado um contraste, um jogo de luzes entre a “América das sombras” e a “América das luzes”, a “América do Mal” e a “América do Bem”.

Nessa dicotomia, você adivinha quem é a “América Má” e a “América Boa”?

O Brasil não faz parte da América Latina

O Brasil faz parte da América do Sul, não da América Latina, embora sua cultura e língua se filiem ao ramo românico ou latino do grande tronco Indo-Europeu, o qual foi tomado de empréstimo para cunhar, em 1856, o conceito de América Latina.

O ponto de maior relevo é que a criação do termo América Latina pressupõe uma tensão geopolítica da qual o Brasil jamais foi parte e com relação à qual sua posição ainda gerava “suspeitas”. Logo, podemos dizer que o Brasil se filia ao latinismo em termos linguísticos, mas não se enquadra na acepção geopolítica, na qual o latinismo foi usado para designar a América Latina.

Sem exageros, podemos dizer que as Américas têm três estórias muito distintas: a dos Estados Unidos, a dos países hispânicos (esses, sim, correspondem à América Latina) e a do Brasil.

Essa diferença política é evidenciada desde o panamericanismo de Simón Bolívar em 1826. O Brasil foi “convidado” para o Congresso do Panamá por insistência, vejam só, da Grã-Bretanha! Protocolarmente, o Império do Brasil aceitou o convite, disse que era “neutro” nas disputas internacionais das novas repúblicas hispânicas (México, Venezuela, Panamá etc.) e, simplesmente, não compareceu.

Naquele tempo, Bolívar suspeitava do Brasil que, ao contrário das repúblicas hispânicas, tinha bom relacionamento com Portugal (consequentemente, com a Europa). Também por esse motivo, o Brasil não era “bem-visto” pelos Estados Unidos, que apoiavam a independência das repúblicas hispânicas, mas não que o panamericanismo partisse delas! A iniciativa do panamericanismo tinha de ser estadunidense, o que realmente aconteceu, como prova a história, na Primeira Conferência Internacional dos Estados Americanos (1889-1890).

Inteligência Artificial: Origem de América Latina na segunda invasão francesa do México

Se você pesquisar porque a América do Sul e Central se chamam “latina”, você vai receber uma resposta da IA que explica a origem do termo pela influência de Napoleão III, o que é incorreto.

A França invadiu o México duas vezes ao longo do turbulento século XIX. A primeira invasão foi a Guerra dos Pastéis (Guerra de los Pasteles, 1838-1839); a segunda intervenção militar foi em 1861-1867.

Um detalhe que esclarece porque os Estados Unidos anunciaram a doutrina Monroe: A primeira invasão francesa ao México aconteceu apenas porque um chefe francês reclamou que sua pastelaria foi destruída durante um conflito civil.

A segunda invasão francesa ao México (1861-1867), sob Napoleão III, visava instalar um arquiducado austríaco no país. Para “legitimar sua invasão imperialista”, Napoleão III alegou que se tratava de uma operação militar de “latinidade”, ou seja, a atitude de uma nação irmã, a França (também latina), com o propósito de libertar os irmãos mexicanos do jugo anglo-saxão (Estados Unidos).

A resposta da IA foi baseada na interpretação de artigos como o de Vicente Romero, “Du nominal ‘latin’ pour l’Autre Amérique : Notes sur la naissance et le sens du nom ‘Amérique latine’ autour des années 1850,” Histoire et sociétés de l’Amérique.

Mas o uso de América Latina por franceses não foi “original”, como explica Michel Gobat[1]:

“A invenção da “América Latina” revela, no entanto, que as construções continentais contemporâneas nem sempre foram produtos imperiais. É verdade que muitos estudiosos assumem que os imperialistas franceses inventaram a “América Latina” para justificar a ocupação de seu país no México (1862-1867). E a ideia de fato derivou do conceito francês de uma “raça latina”, que emigrantes latino-americanos na Europa ajudaram a difundir para o outro lado do Atlântico. Mas, como Arturo Ardao e Miguel Rojas Mix revelaram, o termo “América Latina” já havia sido usado em 1856 por centro e sul-americanos que protestavam contra a expansão dos EUA no Hemisfério Sul. Menos conhecido é o fato de que esses latino-americanos em resistência também temiam a intervenção europeia, embora em menor grau. Tais temores envolviam não apenas os planos franceses sobre o México, mas também os esforços da Espanha para recuperar territórios que havia perdido com as guerras de independência hispano-americanas. A oposição ao imperialismo dos EUA e da Europa, portanto, sustentou a ideia de América Latina. Esse impulso anti-imperialista ajuda a explicar por que a “América Latina” sobrevive, em contraste com o conceito de “África Latina”, que foi desenvolvido por imperialistas franceses no final do século XIX, mas adotado por poucos africanos. A força de permanência da “América Latina” na atual era de globalização sem precedentes reforça a afirmação de Sugata Bose sobre a importância contínua de entidades localizadas entre o nacional e o global — especialmente para avançar projetos anti-imperialistas.”

Origem da Palavra América Latina: 1856

Verdadeiramente, todavia, a expressão América Latina, cunhada para designar as Américas Central e do Sul, em oposição à América do Norte, foi empregada, originalmente, em 1856, pelo filósofo chileno Franciso Bilbao, em um discurso em Paris, em 22 de Junho, para reforçar a ideia de que era necessária a criação de um congresso (ou confederação) das repúblicas que reunisse a “raça da america latina” (la raza latinoamericana) contra a opressão e o domínio anglo-saxão, motivado por violações das soberanias das novas repúblicas hispânicas não pelos Europeus, e sim pelos Estados Unidos.

Nesse ponto, vemos que Bilbao foi influenciado pelo Incidente da Fatia de Melancia (Watermelon Slice Incident), uma briga (15/04/1856) em torno de um pedaço de melancia envolvendo um apreciador estadunidense da fruta no Panamá, que acabou sendo invadido pelos Estados Unidos!

Naquele mesmo tempo, ainda havia os filibusters, indivíduos norte-americanos que organizavam “exércitos particulares” e atacavam as novas repúblicas hispânicas, sendo o mais notável deles Willian Walker, que chegou a se declarar presidente da Nicarágua e recebeu o reconhecimento dos Estados Unidos.

Latino: Uma abordagem semiótica. O signo de uma oposição imperialista

Muito provavelmente, são poucos entre os habitantes (mais de 600 milhões) das Américas Central e do Sul que sabem o significado valorativo de latino na designação daquelas Américas… Vale dizer, por motivos históricos, latino não passou por uma semiose, não se transformou em um signo capaz de representar uma ideia na mente dos habitantes das América Central e do Sul; ou seja, latino ficou como um como um simples “significante” das Américas Central e do Sul para correspondê-las às origens linguísticas comuns aos seus habitantes, que são falantes do ramo românico da língua proto-indo-europeia. Sob essa perspectiva, a história frustrou o filósofo chileno Bilbao, que, ao conclamar a América “latina”, a ela se referindo como uma “raça”, atribuiu à palavra um SIGNO, o de uma integridade moral de que carecia a América oposta, a do Norte, habitada pelos [inimigos] anglo-saxões, uma raça de invasores, violadores, imperialistas!

Nesse ponto, verificamos que a palavra “latina”, então, quer empregada pelo filósofo chileno Francisco Bilbao, em 1856, quer por Napoleão III, em 1861, era um signo cujo processo de significação (semiose) na cultura dos povos das Américas Central e do Sul, simplesmente, não aconteceu.

Por isso, hoje, quando perguntamos a algum daqueles 600 milhões de habitantes da América Latina porque se chama “latina” a sua América, ou o arguido não saberá a resposta, ou se reportará ao significante da palavra latina, àquele sentido visível dela: A América é latina porque nela falamos idiomas que derivam do latim.

“A América Latina é um lugar que fica em lugar nenhum”

Por isso, há a concepção de que é um erro nos referirmos à existência de uma América Latina, que não designa, na verdade, lugar nenhum.

E é essa mesma falta de semiose de latina, quando adicionada às Américas (Central e do Sul), que induziu à análise tão cheia de desprezo por latina, nas palavras, ironicamente, de um professor mexicano, Tenorio-Trillo, que leciona na Universidade de Chicago e é conhecido por sua abordagem crítica, muitas vezes provocativa, sobre como a história e as identidades nacionais são construídas:

“A ideia de ‘América Latina’ deveria ter desaparecido com a obsolescência da teoria racial. Ou assim eu pensava anos atrás. Mas não é fácil declarar algo morto quando mal se pode dizer que tenha existido. Por outro lado, nem Deus nem a égalité jamais existiram de fato. Com certeza, a ‘América Latina’ nunca designou uma realidade geográfica ou historicamente tangível — pelo menos não com um mínimo de rigor empírico e conceitual. Infelizmente, a expressão tem funcionado como o título, como o nome genérico de um enredo bem conhecido que é tanto a autobiografia do termo (‘América Latina’) quanto a história de uma crença que escapou da extinção desde suas origens como ideia e projeto na década de 1850.

No entanto, por mais durável que o termo tenha sido, raramente foi uma questão de vulgari eloquentia [eloquência vulgar]. Certamente passou por uma metempsicose intelectual mal suportável. Pois o adjetivo latino em ‘América Latina’ armazenou um conjunto básico de crenças raciais, históricas e culturais que funcionaram como a sintaxe elementar com a qual sins e nãos modernos, duradouros, embora confusos, foram fraseados — progresso e tradição; a máquina e a milpa; império e/ou nação; Gemeinschaft e Gesellschaft [Comunidade e Sociedade]; raça e cultura; alienação e autenticidade; liberdade moderna através de, ou apesar da, história; identidade como realização pessoal, como êxtase ou como uma inevitabilidade relutante.” (passagem citada serve como a abertura do livro América Latina: O Fascínio e as Limitações de um Epíteto (em tradução livre), publicado em 2017)

 De América Hispânica para América Latina

A América do Sul e Central eram conhecidas como América Hispânica. O processo de mudança para a América Latina foi rápido. Edwin Ryan[2] nos lembra que:

“A designação “América Latina” foi adotada pelas autoridades eclesiásticas em conexão com o concílio realizado em Roma em 1899-1900. Quando as Acta foram publicadas, a página de título dizia “Acta Concilii Plenarii Americae Latinae”, indicando que, embora as autoridades da Igreja possuíssem, sem dúvida, erudição suficiente para perceber a força das objeções à frase, eram práticos o bastante para perceber também que ela estava profundamente enraizada no costume e era conveniente demais”

No princípio do século XIX, a América espanhola era composta por quatro vice-reinos, quatro Capitanias Gerais e quatorze audiências. Entre os vice-reinos, havia o da Nova Espanha e o do Peru. Nova Espanha abrangia o México (que se estendia até a Califórnia), Cuba, São Domingos, Porto Rico, Guatemala e toda a América Central, com exceção do Panamá. O Vice-Reino do Peru compreendia o Chile.  O Vice-Reino de Nova Granada (Panamá, Colômbia e Equador) exercia jurisdição sobre a Capitania Geral da Venezuela. O Vice-Reino do Rio da Prata, por seu lado, abrangia o Alto Peru (Bolívia), o Paraguai, a Argentina e o Uruguai.

O Brasil é “descontextualizado” daquela América espanhola, um “gigante português” cercado por uma América chamada espanhola, hispânica ou ibérica, com a qual não se confundia, nem tinha afinidades, além de ser também “malvisto” pelos Estados Unidos[3].

A “transição” de América Hispânica para América Latina foi, no meio intelectual, muito criticada, causando mesmo reações agressivas. Para avaliação, citamos o seguinte [4]:

Durante os últimos dez anos, escritores da França, dos Estados Unidos e da América Espanhola — e, embora raramente, também de outros países — começaram a usar os termos América Latina e latino-americano em substituição aos antigos e adequados termos América Espanhola e espanhol-americano. Um terceiro termo, Ibero-América ou ibero-americano, também é utilizado por escritores recentes. Quais são os termos adequados? Quais deveríamos usar? No artigo a seguir, peço licença para discutir este assunto brevemente.

Durante os últimos quatro séculos, isto é, desde a descoberta do novo mundo até o final do século XIX, nenhum escritor, historiador ou filólogo de importância utilizou os termos América Latina ou latino-americano. Os franceses usaram por quatro séculos o termo Amérique Espagnole; os ingleses e norte-americanos, o termo Spanish America; os italianos, o termo America Spagnuola, etc. Sempre dissemos, e ainda dizemos, a Península Espanhola. O termo América Latina, portanto, é um termo novo, um intruso, e deve provar seu direito de existir.

A maneira como ele foi adotado por alguns escritores ilustres em nossos dias é surpreendente. O novo nome não é apenas vago, sem sentido e injusto, mas, o que é muito mais grave, é anticientífico. Alguns argumentam que o termo latino-americano foi introduzido por causa do Brasil. Trata-se de uma falácia: porque o Brasil é português em origem, cultura e língua, e provém de Portugal, uma parte integrante da península espanhola, Hispânia, Espanha; e, portanto, América Hispânica inclui o Brasil, bem como a Argentina e outros países sul-americanos.

Todo escolar sabe que a América do Sul foi descoberta, colonizada, civilizada e desenvolvida pela Espanha (incluindo Portugal), da mesma forma que a região agora conhecida como Estados Unidos foi, em sua maior parte, descoberta, colonizada e civilizada pela Inglaterra ou por povos vindos da Inglaterra (incluindo Escócia e Gales). Os termos que têm sido usados pelos últimos quatro séculos, América Espanhola e espanhol-americano, são, portanto, corretos. Onde e por que a necessidade de adotar os novos e incorretos termos?

O trecho do artigo é uma versão espanhola indignada com o fato de a América Espanhola passar a ser chamada de América Latina.

Conclusão

América Latina foi uma expressão criada por Bilbao para se referir aos povos da então América Espanhola, o que não incluía o Brasil, que era culturalmente português e mantinha relacionamento diferenciado com a Europa. A intenção do filósofo chileno foi criar uma unidade cultural, a latina, em oposição à anglo-saxã, definindo um contraste ético que pudesse impulsionar a resistência das repúblicas hispânicas por meio de uma união confederativa, que julgava imprescindível para combater o imperialismo colonial dos Estados Unidos e da Europa.

O termo América Latina acabou substituindo América Hispânica e passou a representar, pela identidade de origem linguística, todas as nações da América Central e do Sul ligadas às línguas românicas, com exceção do Belize, pequeno país da América Central continental, cujo idioma oficial ficou sendo o inglês.

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[1] GOBAT, MICHEL. “The Invention of Latin America: A Transnational History of Anti-Imperialism, Democracy, and Race.” The American Historical Review, vol. 118, no. 5, 2013, pp. 1345–75. JSTOR, http://www.jstor.org/stable/23784580. Accessed 11 Jan. 2026.

[2] Ryan, Edwin. “What Is ‘Latin America’?” The Americas, vol. 3, no. 4, 1947, pp. 487–92. JSTOR, https://doi.org/10.2307/978732. Accessed 11 Jan. 2026.

[3] Congresso do Panamá de 1826,  união latino-americana sob tutela Dulce Portilho Maciel.

[4] Espinosa, Aurelio M. “Hispania.” Hispania, vol. 50, no. 4, 1967, pp. 19–23. JSTOR, http://www.jstor.org/stable/338862. Accessed 13 Jan. 2026.

About Author

Edmundo Lellis Filho

Advogado no Brasil e na União Europeia.
Membro da International Bar Association (IBA) de Londres.
Membro da International Law Association (ILA – Países Baixos).
Membro Câmara Internacional do Comércio de Portugal.
Mestrando (LL.M.) em Justiça Internacional pela Universidade de Londres.
Juiz aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo (1991/2022).
Oficial de Justiça do Tribunal de Justiça de São Paulo (1988/1991).
Piloto Privado Avião.
Investigador de Acidente Aeronáutico (FAB/CENIPA/2004).
Membro honorário da Força Aérea Brasileira.
Membro honorário do Aeroclube de São Paulo.
Autor Livro: O Julgamento de Pôncio Pilatos/Landmark. 2ª Ed. 2007.

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